Os problemas nos olhos depois do lifting facial e/ou da blefaroplastia são mais comuns do que se imagina. Um desses problemas é o desenvolvimento ou a piora da blefarite.
As cirurgias de rejuvenescimento facial, como o lifting de face e a blefaroplastia, têm como objetivo melhorar sinais do envelhecimento e, quando bem indicadas e realizadas, apresentam resultados bastante satisfatórios.
Entretanto, existe um aspecto que nem sempre recebe a mesma atenção: a saúde das pálpebras e da superfície ocular no período após a cirurgia.
Os problemas nos olhos depois do lifting facial e/ou blefaroplastia podem causar os seguintes sintomas:
- ardência;
- sensação de areia nos olhos;
- vermelhidão;
- coceira;
- lacrimejamento;
- secura ocular;
- visão borrada;
- inchaço e vermelhidão nas pálpebras;
- perda de cílios;
- acúmulo de secreção nas margens palpebrais e cílios.
Em pacientes que já apresentavam blefarite ou disfunção das glândulas de Meibômio, os sintomas também podem piorar.
Mas por que podem surgir problemas nos olhos depois do lifting facial e da blefaroplastia?
As pálpebras têm funções que vão muito além da estética. Elas são estruturas fundamentais para a proteção e a lubrificação dos olhos. Cada vez que piscamos, espalhamos o filme lacrimal sobre a superfície ocular. A piscada também participa do funcionamento das glândulas de Meibômio, pequenas glândulas localizadas nas pálpebras que produzem a camada oleosa da lágrima.
Essa camada é importante porque reduz a evaporação da lágrima e ajuda a manter a superfície dos olhos protegida e lubrificada. Por isso, alterações na posição das pálpebras ou na dinâmica da piscada podem interferir nesse delicado equilíbrio.
O que pode mudar depois de uma cirurgia?
No período pós-operatório, existem manifestações esperadas e associadas ao processo de cicatrização. Entre eles inchaço, vermelhidão e hematomas. Dependendo do procedimento realizado e das características individuais da paciente, pode haver também alterações temporárias na forma como as pálpebras fecham ou piscam.
A literatura científica descreve alguns mecanismos que podem contribuir para sintomas de superfície ocular após cirurgias palpebrais ou faciais:
- aumento das piscadas incompletas;
- alteração temporária da força ou dinâmica do piscar;
- dificuldade de fechamento completo das pálpebras;
- alterações da posição palpebral;
- aumento da evaporação da lágrima;
- alterações no funcionamento das glândulas de Meibômio;
- inflamação e inchaço no período pós-operatório.
Essas alterações não acontecem em todas as pessoas e muitas vezes são temporárias. Contudo, podem ter maior importância em quem já apresentava olho seco, blefarite, rosácea ocular ou disfunção das glândulas de Meibômio antes da cirurgia.
Um estudo recente encontrou mais piscadas incompletas após blefaroplastia
Um estudo publicado em 2026 avaliou 50 pacientes, totalizando 100 olhos, antes e depois da realização de blefaroplastia. Os pesquisadores avaliaram sintomas de olho seco, qualidade e facilidade de expressão da secreção das glândulas de Meibômio, estabilidade da lágrima e frequência de piscadas incompletas. (1)
Após 45 dias da cirurgia, houve piora significativa dos sintomas, da qualidade e expressibilidade da secreção das glândulas de Meibômio e aumento das piscadas incompletas.
A boa notícia é que essas alterações foram transitórias nesse grupo: aos três meses, os parâmetros que haviam se alterado já não apresentavam diferença estatisticamente significativa em relação aos valores anteriores à cirurgia. O estudo reforça algo muito importante: a piscada e o funcionamento das pálpebras têm relação direta com a saúde da superfície ocular.
Por que piscar corretamente é tão importante?
Uma piscada completa funciona quase como um pequeno mecanismo de manutenção dos olhos. Ao fechar completamente as pálpebras, distribuímos a lágrima pela superfície ocular e favorecemos a liberação da secreção produzida pelas glândulas de Meibômio.
Quando as piscadas se tornam incompletas, essa secreção pode não ser liberada adequadamente. Com isso, o filme lacrimal pode ficar menos estável e evaporar mais rapidamente.
Em pacientes predispostas, cria-se um ambiente favorável à manutenção da inflamação palpebral e aos sintomas associados à blefarite e ao olho seco.
E o lifting facial?
Os procedimentos de rejuvenescimento facial que envolvem o terço médio da face e a região periocular podem interferir na relação entre a bochecha e a pálpebra inferior. Alterações de posição da pálpebra inferior, inclusive ectrópio, são complicações descritas na literatura de cirurgia facial. Além disso, muitas pacientes realizam lifting facial associado à blefaroplastia ou a outros procedimentos perioculares.
Por isso, quando sintomas oculares aparecem depois de uma cirurgia facial, é importante avaliar exatamente quais procedimentos foram realizados e, principalmente, como estão a posição das pálpebras, o fechamento ocular, a dinâmica das piscadas, as glândulas de Meibômio e a superfície ocular.
A dificuldade de higienização também pode contribuir
Nos primeiros dias ou semanas após uma cirurgia facial, a região pode permanecer inchada, dolorida ou sensível. Existem ainda incisões e orientações específicas de cuidado com a área operada. Na prática, isso pode tornar a higiene habitual das margens palpebrais mais difícil.
Para pacientes que já têm tendência à blefarite, interromper ou reduzir temporariamente os cuidados habituais com as pálpebras pode contribuir para o acúmulo de resíduos e secreções na margem palpebral.
Por isso, pacientes com histórico de blefarite devem conversar com seus médicos sobre como adaptar a higiene palpebral durante o período pós-operatório, respeitando sempre as orientações e o tempo de cicatrização da cirurgia realizada.
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Fiz lifting ou blefaroplastia e minha blefarite piorou. O que fazer?
O primeiro passo é descobrir o que está acontecendo. Ardência, vermelhidão ou sensação de olho seco após uma cirurgia não significam necessariamente que exista apenas blefarite.
É preciso avaliar a posição das pálpebras, a qualidade do fechamento ocular, a presença de piscadas incompletas, o filme lacrimal, as glândulas de Meibômio e sinais de inflamação da margem palpebral.
A partir desse diagnóstico, o tratamento pode incluir diferentes estratégias, de acordo com cada caso.
A luz intensa pulsada pode ajudar?
Em pacientes com disfunção das glândulas de Meibômio e determinadas formas de doença da superfície ocular, a Luz Intensa Pulsada (IPL) pode fazer parte do tratamento.
Estudos clínicos randomizados mostram melhora de parâmetros relacionados à secreção das glândulas de Meibômio, estabilidade do filme lacrimal e sintomas em determinados grupos de pacientes.
Por outro lado, caso exista uma alteração importante da posição da pálpebra ou dificuldade significativa para fechar os olhos, por exemplo, essa condição precisa ser identificada. A IPL atua sobre determinados componentes da doença da superfície ocular, mas não corrige uma alteração mecânica da pálpebra. Por isso, a indicação deve ser individualizada.
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A saúde das pálpebras também deve fazer parte do planejamento de uma cirurgia facial
Pacientes com histórico de blefarite, olho seco, rosácea ocular ou disfunção das glândulas de Meibômio merecem atenção especial quando pretendem realizar procedimentos na região periocular.
Uma avaliação prévia pode identificar fatores de risco, permitir o tratamento da superfície ocular antes da cirurgia e estabelecer cuidados específicos para o pós-operatório.
E, quando sintomas aparecem depois do procedimento, a avaliação especializada ajuda a diferenciar alterações transitórias do pós-operatório de condições que precisam de tratamento específico.
Um bom resultado de rejuvenescimento facial não depende apenas da aparência das pálpebras. Preservar sua função e manter uma superfície ocular saudável também fazem parte do resultado.

Perguntas frequentes
Blefaroplastia pode piorar a blefarite?
Pode haver piora dos sintomas de superfície ocular em algumas pessoas, principalmente naquelas que já apresentam blefarite, olho seco ou disfunção das glândulas de Meibômio. Alterações da piscada, inflamação pós-operatória e dificuldade temporária de higienização podem contribuir.
Lifting facial causa blefarite?
Depende. Caso a cirurgia envolva também a região periocular, como pálpebras e supercílio, podem ocorrer alterações da posição ou função palpebral. Isso, por sua vez, pode contribuir para sintomas oculares em determinados casos.
A alteração da piscada pode causar olho seco?
Sim. Piscadas completas são importantes para distribuir a lágrima e auxiliar o funcionamento das glândulas de Meibômio. Aumento das piscadas incompletas pode favorecer instabilidade do filme lacrimal. Com isso, pode acontecer uma piora dos sintomas do olho seco em quem já tem a condição ou o desenvolvimento da síndrome a partir dessas mudanças anatômicas nas pálpebras.
A piora é permanente?
Não necessariamente. Estudos mostram que algumas alterações após blefaroplastia podem ser transitórias. A duração depende do procedimento, das características individuais e da existência ou não de alterações palpebrais persistentes.
IPL pode tratar a blefarite depois de uma cirurgia facial?
Pode ser indicada em determinados pacientes, especialmente quando existe disfunção das glândulas de Meibômio associada. Antes do tratamento, porém, é importante avaliar se os sintomas estão relacionados apenas à inflamação ou se existe alguma alteração funcional ou mecânica das pálpebras.
Artigo com supervisão da oftalmologista Dra. Tatiana Nahas – CRM 113070 SP – RQE 74945
Dra. Tatiana Rizkallah Nahas é médica oftalmologista especialista em Cirurgia Plástica Ocular (Oculoplástica) e Vias Lacrimais, com Título de Especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e pela Associação Médica Brasileira (AMB).
Formada pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, onde também realizou residência em Oftalmologia, especializou-se em Cirurgia Plástica Ocular pela USP. Foi Chefe do Serviço de Plástica Ocular da Santa Casa de São Paulo por oito anos e integrou a equipe do Setor de Plástica Ocular do Wilford Hall Medical Center, nos Estados Unidos.
É membro da Diretoria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Ocular (SBCPO) e da Sociedade Panamericana de Oculoplástica, além de atuar como palestrante e professora em cursos de formação e especialização médica.
Atende em consultório no Itaim Bibi, em São Paulo, e realiza procedimentos cirúrgicos em hospitais de referência da capital paulista.
Para mais informações, ligue para (11) 3071-3423
Referências
(1) Zhang SY, Yan Y, Fu Y. Cosmetic blepharoplasty and dry eye disease: a review of the incidence, clinical manifestations, mechanisms and prevention. Int J Ophthalmol. 2020 Mar 18;13(3):488-492. doi: 10.18240/ijo.2020.03.18. PMID: 32309188; PMCID: PMC7154208.
