Extensão de cílios e blefarite: quais são os riscos para a saúde das pálpebras e dos olhos?

Extensão de cílios e blefarite: quais são os riscos para a saúde das pálpebras e dos olhos?

A extensão de cílios se tornou um dos procedimentos estéticos mais populares dos últimos anos. A técnica permite aumentar o comprimento e o volume dos cílios e, quando realizada corretamente, pode proporcionar um resultado bastante natural.

Mas quem tem blefarite, olho seco ou problemas nas glândulas de Meibômio precisa ter alguns cuidados antes realizar esse procedimento. A razão é que estudos científicos já relacionaram o uso de extensões de cílios a alterações na superfície ocular, redução da estabilidade do filme lacrimal, reações alérgicas nas pálpebras e outros problemas oculares.

Isso significa que extensão de cílios sempre faz mal aos olhos? Não. Porém, pessoas que já apresentam doenças das pálpebras, como blefarite, ou da superfície ocular devem consultar um oftalmologista antes de colocar a extensão de cílios.

Quem tem blefarite pode colocar extensão de cílios?

A resposta para essa pergunta não é tão simples. A blefarite é uma inflamação crônica que afeta principalmente as margens das pálpebras. Ela pode causar sintomas como coceira, ardência, vermelhidão, sensação de areia nos olhos, crostas na base dos cílios e inchaço das pálpebras.

Como a extensão é aplicada justamente nos cílios, muito próxima à região afetada pela blefarite, alguns fatores podem favorecer irritação ou dificultar o controle da doença. Por isso, pacientes com blefarite, olho seco, rosácea ocular, dermatite seborreica ou disfunção das glândulas de Meibômio devem conversar com o oftalmologista antes de realizar ou manter extensões de cílios, especialmente quando apresentam sintomas ativos.

Como a extensão de cílios pode afetar os olhos?

Um estudo prospectivo publicado em 2024 no periódico Contact Lens and Anterior Eye acompanhou 32 participantes antes e depois da colocação de extensões de cílios. Uma hora após o procedimento, 84,4% das participantes relataram algum sintoma ocular, sendo a sensação de corpo estranho o mais frequente.

Os pesquisadores também identificaram alterações temporárias na estabilidade do filme lacrimal e sinais de comprometimento do epitélio da córnea. A conclusão foi que as extensões podem causar um desequilíbrio da homeostase da superfície ocular e reduzir, pelo menos temporariamente, a estabilidade do filme lacrimal.

Outro estudo, envolvendo 416 mulheres jovens, comparou usuárias e não usuárias de extensão de cílios. Entre as usuárias foram observadas taxas maiores de lacrimejamento, perda de cílios naturais e secreção, além de maior frequência de alterações nos cílios, redução do tempo de ruptura do filme lacrimal e alterações das glândulas de Meibômio.

É importante ressaltar que estudos desse tipo demonstram associação e alterações observadas nos grupos avaliados, mas não significam que todas as pessoas que utilizam extensão desenvolverão doença ocular.

1. A cola pode causar alergia e inflamação nas pálpebras

Um dos problemas relacionados às extensões são as reações aos adesivos utilizados para fixar os fios artificiais. Um estudo publicado no periódico Cornea analisou 107 mulheres que procuraram atendimento oftalmológico devido a sintomas após a colocação de extensões.

Entre elas, foram diagnosticados casos de ceratoconjuntivite e blefarite alérgica relacionados ao procedimento. Os pesquisadores também identificaram formaldeído nos três adesivos analisados. A blefarite alérgica pode causar coceira intensa, vermelhidão, irritação, lacrimejamento e inchaço das pálpebras. Os sintomas podem surgir logo após o procedimento ou algumas horas ou dias depois.

2. A extensão pode dificultar a higiene das pálpebras

A higiene palpebral é uma das medidas mais importantes para pacientes com blefarite. A região da base dos cílios acumula naturalmente oleosidade, secreções, células da pele, resíduos de maquiagem e outras partículas. Quando há extensão, algumas pessoas evitam limpar adequadamente essa área por medo de descolar ou diminuir a durabilidade dos fios.

Para quem tem blefarite, essa dificuldade é especialmente relevante. A limpeza da margem palpebral ajuda a remover resíduos e secreções e faz parte das medidas utilizadas para controlar a doença. Portanto, preservar a extensão às custas de uma higiene inadequada não é uma boa estratégia para quem apresenta inflamação recorrente das pálpebras.

3. E as glândulas de Meibômio?

Na margem das pálpebras ficam as glândulas de Meibômio, responsáveis pela produção da camada lipídica da lágrima. Essa camada ajuda a evitar que a lágrima evapore rapidamente. Quando essas glândulas não funcionam adequadamente, pode ocorrer a chamada disfunção das glândulas de Meibômio, frequentemente associada à blefarite e ao olho seco evaporativo.

Um estudo recente que comparou usuárias e não usuárias de extensão encontrou maior frequência de alterações das glândulas de Meibômio entre as mulheres que utilizavam extensões.

Isso não permite afirmar que a extensão, isoladamente, seja responsável por causar disfunção das glândulas em todas as usuárias. Entretanto, o achado reforça a importância de avaliar a saúde das pálpebras e da superfície ocular em quem utiliza extensões regularmente.

4. Extensão de cílios pode piorar o olho seco?

Pode haver impacto sobre a estabilidade do filme lacrimal. O estudo prospectivo publicado em 2024 demonstrou redução do tempo de ruptura do filme lacrimal após a colocação das extensões. Quando a lágrima perde estabilidade e evapora mais rapidamente, podem surgir sintomas como:

  • ardência;
  • sensação de areia nos olhos;
  • vermelhidão;
  • lacrimejamento reflexo;
  • sensação de corpo estranho;
  • desconforto ocular;
  • oscilação da visão.

Pacientes que já apresentam olho seco podem ser mais sensíveis a fatores capazes de desestabilizar ainda mais a superfície ocular.

5. Extensão de cílios pode fazer os cílios naturais caírem?

A manipulação repetida dos cílios, o peso das extensões e a tração durante a colocação ou retirada podem contribuir para quebra ou perda dos cílios naturais. A Academia Americana de Oftalmologia alerta que puxar, esfregar ou remover inadequadamente as extensões pode danificar os cílios naturais e, em algumas situações, os próprios folículos. Por isso, extensões não devem ser arrancadas ou removidas de maneira traumática.

Quais sinais indicam que algo não está bem?

Depois da colocação das extensões, procure avaliação oftalmológica se surgirem sintomas persistentes ou importantes, como:

  • pálpebras muito inchadas;
  • coceira intensa;
  • vermelhidão;
  • ardência;
  • dor ocular;
  • secreção;
  • sensação persistente de corpo estranho;
  • sensibilidade à luz;
  • piora importante do olho seco;
  • queda acentuada dos cílios.

Dor intensa, alteração da visão ou sintomas importantes após o procedimento merecem avaliação médica.

Estou com blefarite ativa. Posso colocar extensão de cílios?

Se a pálpebra já está inflamada, com coceira, crostas, vermelhidão, secreção ou outros sinais de blefarite ativa, o mais prudente é avaliar e controlar a doença antes de realizar um procedimento cosmético tão próximo à margem palpebral. Além disso, pacientes que apresentam crises recorrentes precisam investigar a causa e os fatores associados à blefarite.

Então é preciso abandonar definitivamente a extensão de cílios?

Não necessariamente. O objetivo não é demonizar um procedimento estético, mas compreender que a região dos cílios também faz parte da saúde ocular. A decisão deve considerar a condição das pálpebras, a presença de blefarite, olho seco, alergias ou disfunção das glândulas de Meibômio, além da qualidade dos produtos utilizados e das condições de higiene durante a aplicação.

Para quem apresenta doença palpebral recorrente, a avaliação oftalmológica pode ajudar a determinar se manter as extensões é adequado naquele momento.

Cuidados importantes para quem usa extensão de cílios

Algumas medidas ajudam a reduzir riscos:

  • não negligenciar a higiene das pálpebras para aumentar a durabilidade da extensão;
  • realizar o procedimento em ambiente com boas condições de higiene;
  • conhecer os produtos utilizados, especialmente o adesivo;
  • evitar puxar ou arrancar as extensões;
  • interromper novos procedimentos se houver irritação persistente;
  • procurar um oftalmologista diante de sintomas;
  • se houver blefarite, olho seco ou doença palpebral, conversar com o médico sobre a segurança de continuar utilizando extensões.

Extensão bonita não deve significar pálpebra doente

Os cílios têm importância estética, mas também fazem parte de uma região extremamente delicada: a margem palpebral. É justamente nessa área que ficam estruturas essenciais para a saúde da superfície ocular, incluindo as glândulas de Meibômio. Por isso, coceira, ardência, vermelhidão ou crostas recorrentes não devem ser considerados apenas um inconveniente provocado pela extensão. Esses sintomas podem indicar blefarite, alergia, olho seco ou outras alterações que precisam ser avaliadas.

Quem utiliza extensão de cílios não precisa escolher entre estética e saúde ocular. O mais importante é reconhecer os sinais de alerta e cuidar adequadamente das pálpebras e dos olhos.

Saiba mais sobre a blefarite aqui. https://tatiananahas.com.br/2024/09/17/o-que-e-blefarite-sinais-sintomas-e-tratamento/

Perguntas frequentes

Extensão de cílios causa blefarite?

Não é correto afirmar que toda extensão de cílios causa blefarite. Entretanto, o procedimento tem sido associado a blefarite alérgica e outras alterações da superfície ocular, e alguns fatores relacionados às extensões podem ser especialmente problemáticos para pessoas que já apresentam doença palpebral.

Quem tem blefarite pode usar extensão de cílios?

Depende da condição das pálpebras e do controle da doença. Em períodos de inflamação ativa, é recomendável procurar avaliação oftalmológica antes de realizar o procedimento.

A cola da extensão pode causar alergia?

Sim. Reações aos adesivos utilizados nas extensões estão descritas na literatura e podem provocar coceira, vermelhidão e edema das pálpebras.

Extensão de cílios pode piorar olho seco?

Estudos demonstraram alterações temporárias na estabilidade do filme lacrimal após a aplicação e associação entre o uso de extensões e sinais de doença da superfície ocular.

Preciso lavar os cílios mesmo usando extensão?

A higiene da margem palpebral continua sendo importante. Pessoas com blefarite, em particular, não devem deixar de realizar a higiene recomendada pelo oftalmologista apenas para preservar a extensão.

Artigo com supervisão Dra. Tatiana Nahas – CRM 113070 SP – RQE 74945

Dra. Tatiana Rizkallah Nahas é médica oftalmologista especialista em Cirurgia Plástica Ocular (Oculoplástica) e Vias Lacrimais, com Título de Especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e pela Associação Médica Brasileira (AMB).

Formada pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, onde também realizou residência em Oftalmologia, especializou-se em Cirurgia Plástica Ocular pela USP. Foi Chefe do Serviço de Plástica Ocular da Santa Casa de São Paulo por oito anos e integrou a equipe do Setor de Plástica Ocular do Wilford Hall Medical Center, nos Estados Unidos.

É membro da Diretoria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Ocular (SBCPO) e da Sociedade Panamericana de Oculoplástica, além de atuar como palestrante e professora em cursos de formação e especialização médica.

Atende em consultório no Itaim Bibi, em São Paulo, e realiza procedimentos cirúrgicos em hospitais de referência da capital paulista.

Para mais informações, ligue para (11) 3071-3423

Referências científicas

HAN, J. et al. The effects of eyelash extensions on the ocular surface. Contact Lens and Anterior Eye. 2024;47(2):102109. DOI: 10.1016/j.clae.2023.102109.

AMANO, Y.; SUGIMOTO, Y.; SUGITA, M. Ocular disorders due to eyelash extensions. Cornea. 2012;31(2):121-125.

Eyelash Extension Wear Potentiates Clinical Signs of Ocular Surface Diseases Among Young Women. Estudo transversal com 416 participantes. PubMed PMID: 41637114.

AMERICAN ACADEMY OF OPHTHALMOLOGY. Eyelash Extension Facts and Safety. EyeSmart.

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