Uso de telas pode causar olho seco e piorar a blefarite?

Uso de telas pode causar olho seco e piorar a blefarite?

Sim, o uso de telas pode causar olho seco e piorar a blefarite e isso já foi corroborado em inúmeros estudos. A principal razão é que durante o uso de telas, piscamos menos ou de forma incompleta. Com isso, o filme lacrimal não é distribuído adequadamente, o que prejudica a superfície ocular. Como resultado, surgem os sintomas do olho seco.

O fato de piscar menos ou uma piscada incompleta acarreta uma evaporação mais rápida do filme lacrimal. Para além disso, alguns estudos apontam que existe uma associação entre o uso prolongado de dispositivos digitais e alterações nas glândulas de Meibômio, estruturas fundamentais para a proteção da superfície dos olhos.

Entre os sintomas que podem surgir após longos períodos usando telas estão:

  • Ardência;
  • Sensação de areia nos olhos;
  • Vermelhidão;
  • Irritação;
  • Embaçamento da visão.

Um dos estudos mais relevantes sobre o assunto foi publicado no The Ocular Surface. Os autores apontaram que durante o uso das telas, especialmente do computador, ocorre redução da frequência das piscadas e aumento das piscadas incompletas. A revisão também relaciona o uso prolongado de telas à disfunção das glândulas de Meibômio, além de alterações na estabilidade e composição do filme lacrimal.

Por que o uso de telas pode aumentar o risco do olho seco?

A piscada exerce uma função essencial para a saúde ocular. Cada vez que fechamos completamente as pálpebras, distribuímos o filme lacrimal pela superfície dos olhos. Esse filme (popularmente chamado de lágrima) é composto de três camadas.

Uma delas é a camada lipídica, produzida principalmente pelas glândulas de Meibômio, pequenas glândulas localizadas nas pálpebras. A secreção oleosa produzida por essas glândulas ajuda a evitar que a lágrima evapore rapidamente.

Durante o uso prolongado de dispositivos digitais, porém, podemos piscar com menor frequência e realizar mais piscadas incompletas. Com isso, o filme lacrimal pode se tornar menos estável e evaporar mais rapidamente. Esse mecanismo ajuda a explicar por que tantas pessoas apresentam sintomas de olho seco depois de passar horas trabalhando no computador ou usando o celular.

O que acontece com a frequência das piscadas quando usamos telas?

Estudos sobre dispositivos digitais e superfície ocular mostram que a exposição às telas pode alterar tanto a frequência quanto a qualidade das piscadas. Ao piscar, é crucial que a pálpebra superior encontre completamente a inferior.

Quando isso não acontece, a lágrima pode não ser distribuída adequadamente por toda a superfície ocular. Além disso, o movimento das pálpebras participa do funcionamento das glândulas de Meibômio.

Por isso, passar longos períodos diante das telas pode criar condições favoráveis para:

  • maior evaporação da lágrima;
  • instabilidade do filme lacrimal;
  • ressecamento da superfície ocular;
  • ardência e sensação de areia;
  • vermelhidão;
  • cansaço ocular;
  • visão embaçada ou oscilante;
  • piora dos sintomas de olho seco.

Qual é a relação entre telas e as glândulas de Meibômio?

Essa é uma das relações mais interessantes encontradas nos estudos recentes. As glândulas de Meibômio estão localizadas nas pálpebras e produzem o meibum, substância oleosa que forma a camada mais externa do filme lacrimal. Essa camada funciona como uma espécie de proteção contra a evaporação excessiva das lágrimas.

Quando essas glândulas não funcionam adequadamente, ocorre a chamada Disfunção das Glândulas de Meibômio (DGM), uma das principais causas de olho seco evaporativo.

Um estudo avaliou usuários frequentes de dispositivos digitais e encontrou pior estabilidade do filme lacrimal, alterações na função das glândulas de Meibômio e maior perda glandular entre os indivíduos com maior exposição às telas.

Usar muito celular ou computador causa blefarite?

Não é correto afirmar que o uso de telas, isoladamente, cause blefarite. A blefarite é uma doença inflamatória das pálpebras que pode envolver diferentes fatores, como alterações das glândulas de Meibômio, presença de Demodex, doenças dermatológicas, alterações da microbiota e outros fatores individuais.

Entretanto, existe uma relação biologicamente plausível entre o uso prolongado de telas, alterações no padrão de piscadas, maior evaporação da lágrima e disfunção das glândulas de Meibômio.

Por isso, em pessoas que já apresentam blefarite, disfunção das glândulas de Meibômio ou olho seco, muitas horas consecutivas diante do computador ou do celular podem contribuir para a piora do desconforto ocular.

Quais sintomas podem indicar olho seco relacionado ao uso de telas?

Os sintomas podem aparecer ou se intensificar ao longo do dia, especialmente depois de várias horas de trabalho ou estudo.

Entre os mais comuns estão:

  • Ardência nos olhos: sensação de queimação que tende a aumentar ao longo do período de exposição às telas.
  • Sensação de areia ou corpo estranho: o paciente pode sentir como se houvesse alguma coisa dentro do olho.
  • Olhos vermelhos: a instabilidade do filme lacrimal pode contribuir para irritação da superfície ocular.
  • Visão embaçada que melhora ao piscar: é um sinal bastante característico de alteração do filme lacrimal. Quando a pessoa pisca, redistribui temporariamente a lágrima e a visão pode melhorar.
  • Cansaço ocular: pode ocorrer associado ao esforço visual prolongado.
  • Lacrimejamento: embora pareça contraditório, o olho seco também pode provocar lacrimejamento reflexo.

Crianças e adolescentes também podem apresentar alterações?

Sim. Esse é um tema que vem despertando atenção justamente pelo aumento do tempo que crianças e adolescentes passam diante de celulares, tablets e computadores.

Estudos com crianças já avaliaram a relação entre tempo de tela e morfologia das glândulas de Meibômio, inclusive por meio de exames de imagem específicos, como a meibografia.

Esses achados não significam que toda criança que utiliza dispositivos eletrônicos desenvolverá doença das glândulas de Meibômio. Entretanto, reforçam a importância de considerar os hábitos digitais durante a avaliação da superfície ocular, principalmente quando existem sintomas.

Reduzir o tempo de tela resolve o olho seco?

Nem sempre. Fazer pausas durante o uso dos dispositivos, evitar períodos muito longos sem interrupção e lembrar-se de realizar piscadas completas podem ajudar a reduzir alguns sintomas.

Também é importante observar fatores ambientais. Ar-condicionado, ventiladores direcionados para o rosto, baixa umidade e ambientes muito secos podem aumentar a evaporação da lágrima.

Entretanto, quando os sintomas são frequentes ou persistentes, simplesmente diminuir o tempo de tela pode não ser suficiente. É preciso investigar se existe olho seco, blefarite, disfunção das glândulas de Meibômio ou outra alteração da superfície ocular.

Como saber se as glândulas de Meibômio estão funcionando corretamente?

A avaliação oftalmológica da superfície ocular permite analisar as pálpebras, a margem palpebral, a qualidade da lágrima e o funcionamento das glândulas de Meibômio.  Essa investigação é particularmente importante em pessoas que apresentam sintomas recorrentes, pois ardência e ressecamento não têm necessariamente a mesma causa em todos os pacientes.

Quando procurar um oftalmologista?

Sintomas esporádicos, após muitas horas de computador, podem melhorar com pausas e mudanças de hábitos. Porém, vale procurar avaliação especializada quando ardência, vermelhidão, sensação de areia, lacrimejamento ou visão oscilante tornam-se frequentes.

Também é importante investigar quando existe necessidade constante de usar colírios lubrificantes para conseguir permanecer diante das telas. Identificar se existe alteração do filme lacrimal, blefarite ou disfunção das glândulas de Meibômio permite direcionar o tratamento para a origem do problema.

Perguntas frequentes sobre telas, olho seco e blefarite

Ficar muito tempo no celular pode causar olho seco?

O uso prolongado de celulares e outros dispositivos digitais está associado a alterações no padrão de piscadas e à maior instabilidade do filme lacrimal. Esses fatores podem favorecer ou piorar sintomas de olho seco.

Por que meus olhos ardem quando fico muito tempo no computador?

Uma das possíveis explicações é a redução da frequência e da qualidade das piscadas. Isso pode aumentar a evaporação das lágrimas e deixar a superfície ocular mais exposta.

Usar telas pode entupir as glândulas de Meibômio?

Não é possível afirmar que as telas diretamente “entopem” as glândulas. Entretanto, estudos encontraram associação entre maior exposição a dispositivos digitais e alterações na função e na estrutura das glândulas de Meibômio.

O celular pode piorar a blefarite?

O celular não deve ser considerado uma causa isolada de blefarite. Porém, longos períodos de uso podem alterar o padrão de piscadas e aumentar a evaporação da lágrima. Em pacientes com disfunção das glândulas de Meibômio, blefarite ou olho seco, isso pode contribuir para a piora dos sintomas.

Visão embaçada depois de usar o computador pode ser olho seco?

Sim. A instabilidade do filme lacrimal pode provocar visão oscilante ou embaçada que, em alguns casos, melhora temporariamente depois de piscar. Existem, entretanto, outras causas de visão embaçada, por isso sintomas persistentes devem ser avaliados por um oftalmologista.

Piscar mais ajuda quem trabalha no computador?

Realizar piscadas completas e fazer pausas regulares pode ajudar a manter a distribuição do filme lacrimal. Quando existe uma doença da superfície ocular, porém, essas medidas não substituem o diagnóstico e o tratamento adequado.

A tela pode não ser o único problema

Quando os olhos começam a arder todos os dias depois de algumas horas diante do computador, é fácil colocar toda a culpa na tela. Mas o desconforto pode revelar algo além do excesso de tempo diante dos dispositivos digitais.

Olho seco, blefarite e alterações das glândulas de Meibômio podem apresentar sintomas semelhantes e, muitas vezes, coexistir.

Por isso, mais importante do que simplesmente reduzir o tempo de tela é entender por que a superfície ocular está apresentando sintomas. A avaliação com um oftalmologista especializado em superfície ocular permite identificar a origem do problema e indicar o tratamento mais adequado para cada paciente.

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Artigo com supervisão – Dra. Tatiana Nahas – CRM 113070 SP – RQE 74945

Dra. Tatiana Rizkallah Nahas é médica oftalmologista especialista em Cirurgia Plástica Ocular (Oculoplástica) e Vias Lacrimais, com Título de Especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e pela Associação Médica Brasileira (AMB).

Formada pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, onde também realizou residência em Oftalmologia, especializou-se em Cirurgia Plástica Ocular pela USP. Foi Chefe do Serviço de Plástica Ocular da Santa Casa de São Paulo por oito anos e integrou a equipe do Setor de Plástica Ocular do Wilford Hall Medical Center, nos Estados Unidos.

É membro da Diretoria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Ocular (SBCPO) e da Sociedade Panamericana de Oculoplástica, além de atuar como palestrante e professora em cursos de formação e especialização médica.

Atende em consultório no Itaim Bibi, em São Paulo, e realiza procedimentos cirúrgicos em hospitais de referência da capital paulista.

Para mais informações, ligue para (11) 3071-3423

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Referências científicas

  • Talens-Estarelles C, et al. The effects of breaks on digital eye strain, dry eye and binocular vision: Testing the 20-20-20 rule. Contact Lens and Anterior Eye. 2023.
  • Al-Mohtaseb Z, et al. Digital eye strain: prevalence, measurement and amelioration. BMJ Open Ophthalmology. 2018.
  • Use of digital displays and ocular surface alterations: A review. The Ocular Surface. 2021. PMID: 33053438.
  • Video display terminal use and dry eye: preventive measures and future perspectives. 2022. PMID: 35122403.
  • Review on the possible pathophysiological mechanisms underlying visual display terminal-associated dry eye disease. 2022. PMID: 35441459.
  • Electronic Device Screen Time and Meibomian Gland Morphology in Children. 2021. PMID: 34840674.
  • New Indicator of Children’s Excessive Electronic Screen Use and Factors in Meibomian Gland Atrophy. 2021. PMID: 33857506.
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