Não, o calázio não “vira” câncer. Entretanto, alguns tumores das pálpebras podem apresentar características semelhantes às de um calázio, o que pode atrasar o diagnóstico e o tratamento. Entre eles está o carcinoma sebáceo, um tumor raro que pode surgir nas glândulas presentes nas pálpebras.
Portanto, quando um calázio não desaparece, volta repetidamente no mesmo local ou apresenta características diferentes do habitual, é crucial procurar um oftalmologista para uma avaliação mais minuciosa.
O que é um calázio?
O calázio é um nódulo (bolinha) que se forma na pálpebra devido à obstrução das glândulas de Meibômio. Essas pequenas glândulas ficam localizadas nas pálpebras e produzem uma substância oleosa, chamada meibum, que faz parte da camada lipídica da lágrima e ajuda a evitar sua evaporação.
Quando a saída de uma dessas glândulas fica obstruída, sua secreção pode ficar retida, desencadeando uma reação inflamatória e formando um pequeno nódulo na pálpebra, ou seja, um calázio.
Ao contrário do terçol, o calázio frequentemente apresenta pouca dor ou pode ser completamente indolor, principalmente depois da fase inicial. Além disso, o calázio melhora de forma espontânea após alguns dias ou semanas.
Afinal, calázio pode virar câncer?
Não há evidências de que um calázio comum se transforme em câncer. Portanto, a ideia de que “um calázio pode virar câncer” pode ser considerada um mito.
O que existe — e merece atenção — é outra situação: alguns tumores das pálpebras podem se parecer com um calázio. Isso significa que uma lesão inicialmente interpretada como calázio pode, em casos raros, corresponder a outra doença. Um dos tumores mais conhecidos por apresentar esse comportamento é o carcinoma sebáceo da pálpebra.
O que é carcinoma sebáceo da pálpebra?
O carcinoma sebáceo é um tumor maligno que pode se desenvolver nas pálpebras superiores e inferiores. Apesar de ser considerado raro, é o terceiro câncer palpebral mais comum. Infelizmente, é um tumor agressivo que pode se espalhar para outras partes do corpo, entre 8 e 14% dos casos. A taxa de mortalidade é de 10 a 30%.
Segundo um estudo publicado no periódico International Opthalmology , a incidência global de carcinoma sebáceo está aumentando. Hoje, é o terceiro tumor de pálpebra mais comum. O prognóstico depende, principalmente, do diagnóstico e do tratamento precoce.
Contudo, uma das principais dificuldades para obter o diagnóstico precoce é justamente o fato do carcinoma sebáceo se parecer com outras condições e doenças benignas, como o calázio, por exemplo.
O carcinoma sebáceo pode se apresentar como um nódulo na pálpebra semelhante ao calázio e, em algumas situações, também pode provocar alterações que lembram uma blefarite ou blefaroconjuntivite persistente.
Uma revisão sistemática e meta-análise envolvendo 1.333 pacientes com carcinoma sebáceo das pálpebras encontrou idade média de 65,2 anos. A pálpebra superior estava envolvida em aproximadamente 63% dos casos. Outro dado relevante é que, entre os casos nos quais havia informação sobre o diagnóstico inicial, menos da metade havia sido corretamente identificada desde o início.
Isso ajuda a explicar por que uma lesão persistente ou atípica na pálpebra não deve simplesmente ser considerada um “calázio que não melhora”.
Estudo analisou mais de mil lesões diagnosticadas como calázio
Um estudo publicado na revista científica Eye avaliou 1.060 lesões que haviam recebido diagnóstico clínico de calázio e, posteriormente, foram analisadas por exame histopatológico. Em 93,6% dos casos, o diagnóstico de calázio foi confirmado. Entretanto, em 6,4%, a análise revelou outro diagnóstico.
Entre todas as 1.060 lesões inicialmente consideradas calázios:
- 1,4% eram lesões malignas;
- 1,1% eram carcinomas sebáceos;
- 0,3% eram carcinomas basocelulares;
- 0,2% apresentavam alterações consideradas pré-malignas.
É fundamental interpretar esses números corretamente. Isso não significa que 1,4% dos calázios se transformaram em câncer. Essas lesões já eram tumores ou outras alterações que, clinicamente, se pareciam com um calázio.
Essa é justamente a principal mensagem: calázio não vira câncer, mas nem toda lesão que parece um calázio é necessariamente um calázio.
E se for o primeiro calázio?
Outro resultado interessante do mesmo estudo ajuda a derrubar uma segunda ideia equivocada: a de que somente calázios recorrentes mereceriam atenção.
Entre os 17 casos malignos ou pré-malignos identificados, apenas seis haviam sido classificados clinicamente como calázios recorrentes. Os demais haviam sido considerados episódios primários. Isso não significa que todo primeiro episódio de calázio precise gerar preocupação com câncer. O calázio é uma condição benigna e muito mais comum.
O dado reforça, entretanto, a importância da avaliação clínica adequada das lesões palpebrais, principalmente quando sua aparência ou evolução fogem do esperado.
Quando um “calázio” merece uma avaliação mais cuidadosa?
Algumas características podem fazer com que o oftalmologista considere outros diagnósticos além do calázio.
Entre elas estão:
- Calázio que volta repetidamente no mesmo lugar: A recorrência no mesmo ponto da pálpebra merece investigação.
- Lesão que não melhora como esperado. Uma alteração persistente apesar do tratamento adequado deve ser reavaliada.
- Aparência diferente de um calázio típico. Mudanças na estrutura da pálpebra ou outras características atípicas podem indicar a necessidade de investigação adicional.
- Alterações persistentes em apenas um dos olhos Alguns tumores podem simular processos inflamatórios crônicos, inclusive quadros semelhantes à blefarite.
- Lesões em pessoas mais velhas. O carcinoma sebáceo ocorre predominantemente em adultos mais velhos, embora isso não signifique que toda lesão palpebral nessa faixa etária seja suspeita.
Calázio recorrente é câncer?
Na grande maioria das vezes, não. Existem diversas razões benignas para uma pessoa apresentar calázios de repetição. Alterações das glândulas de Meibômio, blefarite e outras doenças da superfície ocular podem favorecer episódios recorrentes.
Entretanto, justamente porque alguns tumores podem imitar um calázio, uma lesão que reaparece repetidamente no mesmo local deve ser examinada pelo oftalmologista.
A literatura médica descreve há décadas o carcinoma sebáceo como uma doença capaz de se apresentar como calázio recorrente ou mesmo como um quadro semelhante a uma blefarite persistente.
Qual é a relação entre as glândulas de Meibômio, calázio e carcinoma sebáceo?
Essa associação pode gerar confusão porque tanto o calázio quanto determinados carcinomas sebáceos podem envolver estruturas sebáceas presentes nas pálpebras. Mas são doenças completamente diferentes.
No calázio, ocorre obstrução glandular seguida de inflamação. No carcinoma sebáceo, existe proliferação de células malignas. Portanto, uma doença não representa uma evolução natural da outra.
O ponto em comum está principalmente na localização e na possibilidade de algumas manifestações clínicas serem semelhantes.
Como saber se é calázio ou outra doença?
Nem sempre é possível fazer essa diferenciação apenas observando a lesão em casa. O diagnóstico começa pelo exame oftalmológico, no qual são avaliados aspectos como localização, aparência, evolução, recorrência e alterações das estruturas da pálpebra.
Quando o oftalmologista identifica características suspeitas, pode indicar biópsia ou análise histopatológica do tecido para esclarecer o diagnóstico.
Diretrizes clínicas para carcinoma sebáceo destacam a importância da biópsia para o diagnóstico e da avaliação histológica para diferenciá-lo de outras doenças que podem apresentar aparência semelhante.
Calázio que não melhora precisa ser avaliado?
Sim. Isso não significa que um calázio persistente seja câncer. Na imensa maioria das situações, existem explicações benignas.
Porém, persistência, recorrência ou características atípicas são motivos para uma nova avaliação oftalmológica, principalmente quando a lesão volta sempre no mesmo local.
Além de confirmar se realmente se trata de um calázio, o oftalmologista pode investigar fatores que estejam favorecendo sua recorrência, incluindo alterações das glândulas de Meibômio e doenças inflamatórias das pálpebras.
Leia mais sobre como é o tratamento do calázio: https://tatiananahas.com.br/2024/08/01/como-tratar-o-calazio-tudo-que-voce-precisa-saber/
Perguntas frequentes sobre calázio e câncer
Todo calázio precisa de biópsia?
Não necessariamente. A indicação depende da avaliação médica, da evolução da lesão e de suas características clínicas. Lesões persistentes, recorrentes ou atípicas podem exigir investigação adicional.
Calázio recorrente pode ser sinal de câncer?
Na maioria das vezes, o calázio recorrente está associado a condições benignas. Entretanto, alguns tumores das pálpebras, particularmente o carcinoma sebáceo, podem imitar um calázio. Por isso, recorrências no mesmo local merecem avaliação oftalmológica.
Carcinoma sebáceo é comum?
Não. Trata-se de um tumor raro. Apesar disso, merece atenção porque pode ser confundido inicialmente com doenças benignas da pálpebra e possui potencial de recorrência e disseminação.
Calázio pode virar carcinoma sebáceo?
Não. São condições diferentes. O carcinoma sebáceo pode parecer um calázio, mas não há evidência de que um calázio comum se transforme nesse tipo de câncer.
Quando procurar um oftalmologista por causa de um calázio?
Quando a lesão persiste, volta repetidamente — principalmente no mesmo local —, apresenta características incomuns ou não evolui como esperado, é importante realizar uma avaliação oftalmológica.
Calázio não vira câncer, mas o diagnóstico correto importa
A principal mensagem é simples: o calázio é uma condição benigna e não se transforma em câncer.
O cuidado existe porque algumas doenças mais raras, incluindo o carcinoma sebáceo, podem se apresentar de maneira semelhante a um calázio. Por isso, não é necessário ter medo diante de cada episódio de calázio. Mas também não é recomendável ignorar uma lesão palpebral que persiste ou reaparece repetidamente.
Na dúvida, a avaliação de um oftalmologista com experiência em doenças das pálpebras e cirurgia plástica ocular permite diferenciar alterações benignas de situações que necessitam de investigação complementar.
Artigo com supervisão da Dra. Tatiana Nahas – Oftalmologista Especialista em Plástica Ocular, Anexos Palpebrais e Vias Lacrimais – CRM 113070 SP – RQE 74945
Dra. Tatiana Rizkallah Nahas é médica oftalmologista especialista em Cirurgia Plástica Ocular (Oculoplástica) e Vias Lacrimais, com Título de Especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e pela Associação Médica Brasileira (AMB).
Formada pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, onde também realizou residência em Oftalmologia, especializou-se em Cirurgia Plástica Ocular pela USP. Foi Chefe do Serviço de Plástica Ocular da Santa Casa de São Paulo por oito anos e integrou a equipe do Setor de Plástica Ocular do Wilford Hall Medical Center, nos Estados Unidos.
É membro da Diretoria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Ocular (SBCPO) e da Sociedade Panamericana de Oculoplástica, além de atuar como palestrante e professora em cursos de formação e especialização médica.
Atende em consultório no Itaim Bibi, em São Paulo, e realiza procedimentos cirúrgicos em hospitais de referência da capital paulista. Veja aqui como chegar:
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Para mais informações, ligue para (11) 3071-342
Referências científicas
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Owen JL, Kibbi N, Worley B, et al. Sebaceous Carcinoma: Evidence-Based Clinical Practice Guidelines. Lancet Oncology. 2019.
Xu YG, et al. Sebaceous Carcinoma of the Eyelid: A Systematic Review and Meta-Analysis. Dermatologic Surgery. 2021.
Cicinelli MV, Kaliki S. Ocular sebaceous gland carcinoma: an update of the literature. Int Ophthalmol. 2019 May;39(5):1187-1197. doi: 10.1007/s10792-018-0925-z. Epub 2018 Apr 25. PMID: 29696467.
