Skincare pode aumentar o risco de terçol? Entenda como cuidar da pele sem prejudicar a saúde das pálpebras

Skincare pode aumentar o risco de terçol? Entenda como cuidar da pele sem prejudicar a saúde das pálpebras

O skincare não causa terçol diretamente, mas alguns hábitos podem aumentar o risco

A rotina de skincare nunca esteve tão em alta. Séruns, hidratantes, óleos faciais, protetores solares, máscaras e maquiagens fazem parte do dia a dia de milhões de pessoas.

Porém, existe uma região do rosto que costuma ser esquecida durante esses cuidados: as pálpebras.

Segundo a oftalmologista Dra. Tatiana Nahas, especialista em cirurgia plástica ocular e doenças das pálpebras, alguns hábitos relacionados ao skincare e ao uso de maquiagem podem favorecer a obstrução das glândulas de Meibômio, aumentando o risco de blefarite, meibomite, olho seco e terçol, principalmente em pessoas predispostas.

Isso não significa que seja preciso abandonar o skincare. O segredo está em escolher os produtos corretos e evitar alguns erros muito comuns.

Quem tem maior risco de desenvolver terçol por causa dos cosméticos?

Nem todas as pessoas apresentam o mesmo risco.

Os cuidados devem ser redobrados principalmente por quem possui:

  • blefarite;
  • disfunção das glândulas de Meibômio;
  • rosácea;
  • dermatite seborreica;
  • pele muito oleosa;
  • crises frequentes de terçol;
  • olho seco evaporativo.

Essas doenças alteram a produção do meibum, a substância gordurosa produzida pelas glândulas de Meibômio. Quando essa secreção fica mais espessa ou encontra dificuldade para sair, ocorre a obstrução das glândulas, criando um ambiente propício para inflamações e infecções como o terçol.

O que o skincare tem a ver com as glândulas de Meibômio?

As glândulas de Meibômio ficam exatamente na margem das pálpebras, junto aos cílios. Elas produzem a camada oleosa da lágrima, responsável por diminuir sua evaporação e proteger a superfície ocular.

Quando produtos cosméticos muito oleosos, resíduos de maquiagem ou partículas de protetor solar permanecem nessa região, eles podem contribuir para obstruir a saída dessas glândulas.

É importante destacar que o cosmético, isoladamente, não costuma ser a causa do problema. Na maioria dos casos, ele funciona como um fator agravante em pessoas que já apresentam predisposição para alterações nas glândulas meibomianas.

Maquiagem também pode favorecer o aparecimento do terçol

A maquiagem merece atenção especial. Alguns produtos são aplicados justamente na margem palpebral, onde ficam as glândulas de Meibômio.

Os principais vilões são:

  • lápis aplicado na linha d’água;
  • delineador muito próximo da raiz dos cílios;
  • rímel em excesso, principalmente os à prova d’água;
  • maquiagem mal removida antes de dormir.

Esses hábitos podem favorecer o acúmulo de resíduos na região, dificultando a drenagem do meibum e agravando quadros de blefarite e terçol recorrente.

Pincéis e esponjas também podem contaminar a região dos olhos

Outro problema pouco lembrado é a higiene dos acessórios de maquiagem.

Pincéis e esponjas acumulam:

  • gordura da pele;
  • restos de maquiagem;
  • células mortas;
  • bactérias;
  • fungos;
  • ácaros.

Com o uso repetido, esses materiais podem funcionar como reservatórios de micro-organismos capazes de agravar inflamações das pálpebras e favorecer infecções secundárias.

Estudos apontam que skincare e maquiagem podem aumentar o risco de problemas nos olhos

Apesar de ainda existirem poucos estudos específicos sobre rotinas completas de skincare, há um consenso crescente de que cosméticos aplicados na região dos olhos podem interferir na saúde da superfície ocular.

As evidências indicam que o principal problema não é o uso de maquiagem ou produtos de cuidados com a pele em si, mas sim sua aplicação muito próxima à margem palpebral, a remoção inadequada, a falta de higiene dos acessórios e o uso em pessoas que já apresentam predisposição, como blefarite, rosácea, dermatite seborreica ou disfunção das glândulas de Meibômio.

Nessas situações, esses hábitos podem favorecer a obstrução das glândulas, aumentar a inflamação local e contribuir para episódios recorrentes de terçol, calázio e olho seco.

Um dos estudos mais recentes, oEye Cosmetics and Ocular Surface Diseases: An Emerging Concern in Modern Aesthetic Practices (2026), mostrou que há uma relação direta de cosméticos e maquiagem com problemas na superfície ocular e nas glândulas de Meibômio. Veja abaixo as principais conclusão desse estudo.

  • Cosméticos aplicados próximos aos olhos podem migrar para a superfície ocular.
  • O uso frequente de delineador, máscara de cílios e sombras está associado a maior risco de blefarite, olho seco e disfunção das glândulas de Meibômio.
  • Conservantes, fragrâncias, pigmentos e nanopartículas presentes em alguns produtos podem desencadear irritação ou reações inflamatórias.
  • A contaminação de maquiagens e acessórios pode favorecer infecções.
  • Os autores destacam a necessidade de orientar os pacientes sobre o uso seguro dos cosméticos e a higiene das pálpebras.

Como fazer um skincare mais seguro para quem tem blefarite ou terçol de repetição

Pequenas mudanças fazem grande diferença.

Prefira produtos oil free

Quem possui pele oleosa, rosácea ou dermatite seborreica deve optar por hidratantes e protetores solares com fórmulas leves e não comedogênicas. Evite aplicar produtos muito próximos da margem dos cílios.

Retire completamente a maquiagem antes de dormir

Dormir maquiada favorece o acúmulo de resíduos sobre as pálpebras e aumenta o risco de obstrução das glândulas.

Evite usar lápis na linha d’água diariamente

A linha d’água coincide justamente com a abertura das glândulas de Meibômio. O uso frequente pode contribuir para sua obstrução.

Reserve o rímel para ocasiões especiais

O uso diário, principalmente de máscaras à prova d’água, pode favorecer o acúmulo de resíduos na base dos cílios.

Lave pincéis regularmente

O ideal é higienizar os pincéis pelo menos uma vez por semana com sabonete neutro ou produtos específicos.

Higienize as esponjas de maquiagem

Esponjas devem ser lavadas após poucos usos e substituídas quando apresentarem desgaste.

Nunca compartilhe maquiagem

Máscaras de cílios, lápis, delineadores e pincéis podem transmitir bactérias e outros micro-organismos entre usuários.

Observe a validade dos cosméticos

Produtos vencidos sofrem alterações químicas e microbiológicas que aumentam o risco de alergias, irritações e inflamações das pálpebras.

Quando o terçol volta com frequência, o problema geralmente não é a maquiagem

Se o terçol aparece repetidamente, trocar os cosméticos costuma não ser suficiente. Na maioria dos casos existe uma doença de base, como:

  • blefarite;
  • disfunção das glândulas de Meibômio;
  • rosácea ocular;
  • dermatite seborreica;
  • infestação por Demodex.

Nessas situações, é fundamental tratar a causa da inflamação para interromper o ciclo de recorrências.

Luz Intensa Pulsada pode reduzir as crises recorrentes

Nos pacientes que apresentam blefarite crônica, meibomite e episódios repetidos de terçol, um dos tratamentos mais modernos é a Luz Intensa Pulsada (IPL).

Segundo Dra. Tatiana Nahas, a tecnologia atua diretamente sobre as glândulas de Meibômio, reduzindo a inflamação, melhorando a qualidade do meibum, diminuindo a carga de bactérias e ácaros Demodex e favorecendo a desobstrução dos ductos glandulares. Ao tratar a origem do problema, é possível reduzir significativamente a recorrência das crises de terçol em pacientes selecionados.

Mitos e Verdades: Skincare, maquiagem e terçol

1. Skincare causa terçol.

MITO
O skincare, por si só, não causa terçol. O problema é quando produtos muito oleosos ou aplicados muito próximos à margem das pálpebras favorecem a obstrução das glândulas de Meibômio, especialmente em pessoas que já têm blefarite, rosácea ou pele oleosa.

2. Quem tem blefarite tem maior risco de desenvolver terçol.

VERDADE
A blefarite é uma das principais causas do terçol de repetição. A inflamação altera a qualidade da secreção das glândulas de Meibômio, favorecendo sua obstrução e o aparecimento de infecções.

3. Dormir maquiada aumenta o risco de terçol.

VERDADE
Resíduos de maquiagem podem se acumular na base dos cílios e na margem das pálpebras, dificultando a saída da secreção das glândulas e favorecendo inflamações.

4. Lápis na linha d’água pode prejudicar as glândulas de Meibômio.

VERDADE
A linha d’água é justamente onde se localizam as aberturas das glândulas de Meibômio. O uso frequente de lápis nessa região pode bloquear esses ductos e contribuir para a disfunção glandular.

5. Pincéis e esponjas de maquiagem não precisam ser lavados com frequência.

MITO
Esses acessórios acumulam gordura, restos de maquiagem, células mortas e micro-organismos. A falta de higiene pode favorecer infecções e agravar doenças das pálpebras.

6. Quem tem pele oleosa deve ter mais cuidado com cosméticos ao redor dos olhos.

VERDADE
A oleosidade da pele já favorece alterações na secreção das glândulas. Produtos muito pesados ou oleosos podem aumentar ainda mais esse risco.

7. Compartilhar maquiagem pode transmitir doenças oculares.

VERDADE
Máscara de cílios, lápis, delineadores e pincéis podem transportar bactérias, fungos e até ácaros, aumentando o risco de infecções e inflamações nas pálpebras.

8. Se eu trocar de maquiagem, o terçol recorrente vai desaparecer.

MITO
Embora alguns produtos possam agravar o problema, o terçol recorrente geralmente está relacionado a doenças como blefarite, rosácea ocular ou disfunção das glândulas de Meibômio. É importante investigar e tratar a causa.

9. Quem tem terçol de repetição pode precisar de tratamento além da higiene das pálpebras.

VERDADE
Quando as crises são frequentes, apenas trocar os cosméticos ou melhorar a higiene pode não ser suficiente. Em muitos casos, tratamentos específicos, como a Luz Intensa Pulsada (IPL), podem ajudar a melhorar o funcionamento das glândulas de Meibômio e reduzir as recorrências.

Conclusão

O skincare e a maquiagem não precisam ser abandonados para manter a saúde dos olhos, mas devem fazer parte de uma rotina de cuidados consciente. Produtos inadequados, excesso de cosméticos na região das pálpebras e falhas na higiene podem favorecer a obstrução das glândulas de Meibômio e aumentar o risco de blefarite e terçol, especialmente em pessoas predispostas.

Se os episódios de terçol se repetem, vale a pena olhar além do cosmético. Na maioria das vezes, as recorrências são um sinal de que existe uma doença de base, como blefarite, rosácea ocular ou disfunção das glândulas de Meibômio, que precisa ser diagnosticada e tratada. Com orientação especializada, é possível controlar a inflamação, preservar a saúde das pálpebras e continuar aproveitando os benefícios do skincare e da maquiagem com segurança.

infográfico skincare e terçol
infográfico skincare e terçol

Sobre Dra. Tatiana Nahas – CRM 113070 SP – RQE 74945

Dra. Tatiana Rizkallah Nahas é médica Oftalmologista especialista em Cirurgia Plástica Ocular (Oculoplástica) e Vias Lacrimais.

Possui Título de Especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e pela Associação Médica Brasileira (AMB).

Também é membro da Diretoria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Ocular (SBCPO) e da Sociedade Panamericana de Oculoplástica.

Dra. Tatiana Nahas atende em seu consultório particular, localizado no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo. Suas cirurgias são geralmente realizadas em hospitais renomados, como Sírio Libanês Albert Einstein.

Formada pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo, onde também fez sua residência em Oftalmologia. Dra. Tatiana concluiu sua segunda especialização em Cirurgia Plástica Ocular na USP.

Foi membro da equipe do Setor de Plástica Ocular do Wilford Hall Medical Center, serviço de referência em Oftalmologia nos Estados Unidos.

Dra. Tatiana Nahas também participa como palestrante em diversos Congressos na área de Oftalmologia, além de ministrar cursos de formação para médicos e especialização para oftalmologistas. Possui ainda diversos artigos publicados e atuou como Chefe do Serviço de Plástica Ocular da Santa Casa de São Paulo durante 8 anos.

O consultório fica na região do Itaim Bibi, na cidade de São Paulo.

Para mais informações, ligue para (11) 3071-3423

Referências e fontes

Tashbayev B, Yazdani M, Arita R, Fineide F, Utheim TP. Intense pulsed light treatment in meibomian gland dysfunction: A concise review. Ocul Surf. 2020 Oct;18(4):583-594. doi: 10.1016/j.jtos.2020.06.002. Epub 2020 Jul 3. PMID: 32629039. [https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32629039/]

Bhujel, B.; Eah, K.S.; Kang, S.S.; Chung, H.S.; Lee, H.; Kim, J.-Y. Eye Cosmetics and Ocular Surface Diseases: An Emerging Concern in Modern Aesthetic Practices. Cosmetics 202613, 181. https://doi.org/10.3390/cosmetics13040181 [https://www.mdpi.com/2079-9284/13/4/181]

Ng A, Evans K, North RV, Jones L, Purslow C. Impact of Eye Cosmetics on the Eye, Adnexa, and Ocular Surface. Eye Contact Lens. 2016 Jul;42(4):211-20. doi: 10.1097/ICL.0000000000000181. PMID: 26398576. [https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26398576/]

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