Uso indiscriminado de testosterona pode agravar blefarite

Uso indiscriminado de testosterona pode agravar blefarite

Testosterona pode causar blefarite e terçol? Entenda a relação entre hormônios e as glândulas das pálpebras

O uso de testosterona pode causar blefarite ou aumentar o risco de terçol? A relação entre os hormônios androgênicos e a saúde das pálpebras existe. Contudo, é uma associação complexa e é sobre isso que vamos falar nesse artigo.  

Estudos mostram que os andrógenos — grupo de hormônios do qual a testosterona faz parte — exercem importante influência sobre as glândulas de Meibômio, pequenas glândulas localizadas nas pálpebras responsáveis pela produção da camada lipídica da lágrima.

Além disso, um estudo encontrou níveis significativamente mais elevados de testosterona e DHEA-S em pacientes com um tipo específico de disfunção das glândulas de Meibômio, a chamada DGM seborreica.

Por outro lado, outras pesquisas mostram que a deficiência de andrógenos também pode prejudicar o funcionamento das glândulas de Meibômio. Portanto, o mais correto é dizer que existe uma importante relação entre o equilíbrio hormonal, a sinalização dos andrógenos e o funcionamento das glândulas das pálpebras.

O que a testosterona tem a ver com as glândulas das pálpebras?

Nas bordas das pálpebras estão localizadas as glândulas de Meibômio. Elas produzem o meibum, uma secreção rica em lipídios que forma a camada mais externa do filme lacrimal. Essa camada ajuda a impedir que a lágrima evapore rapidamente e, portanto, é essencial para manter a superfície ocular lubrificada.

Quando as glândulas não funcionam adequadamente, pode ocorrer a chamada Disfunção das Glândulas de Meibômio (DGM), uma das principais causas do olho seco evaporativo.

E é justamente aqui que entram os hormônios. As glândulas de Meibômio são consideradas tecidos responsivos aos andrógenos. A sinalização pelo receptor de andrógeno participa de processos relacionados à diferenciação das células dessas glândulas e à produção de lipídios. Isso significa que a testosterona e outros andrógenos podem influenciar diretamente sua fisiologia.

Testosterona alta pode estar relacionada à disfunção das glândulas de Meibômio?

Um estudo publicado por Sahin e colaboradores investigou exatamente essa questão. Os pesquisadores compararam 50 pacientes com disfunção seborreica das glândulas de Meibômio e 50 indivíduos sem a condição, analisando diferentes hormônios.

Os resultados chamaram atenção:

  • testosterona média nos pacientes com DGM seborreica: 4,78 ng/mL;
  • testosterona média nos controles: 2,27 ng/mL;
  • DHEA-S médio nos pacientes: 370,7 μg/mL;
  • DHEA-S médio nos controles: 238,5 μg/mL.

As diferenças de testosterona e DHEA-S foram estatisticamente significativas. Os pesquisadores encontraram essa associação tanto em homens quanto em mulheres. Esse resultado sugere que níveis mais elevados de testosterona e DHEA-S podem estar associados à DGM seborreica.

Entretanto, há uma ressalva importante: trata-se de um estudo caso-controle e, portanto, ele demonstra associação, e não que a testosterona tenha causado a alteração nas glândulas.

Além disso, o estudo avaliou especificamente a forma seborreica da DGM. Os resultados não devem ser automaticamente generalizados para todos os tipos de disfunção das glândulas de Meibômio.

Então, testosterona pode causar blefarite?

Até o momento, não há evidência científica suficiente para afirmar que a testosterona, isoladamente, seja uma causa direta de blefarite. A blefarite é uma condição inflamatória multifatorial das pálpebras. Em muitos pacientes, ela está associada à disfunção das glândulas de Meibômio, mas diversos outros fatores podem participar do problema.

Quando existe DGM, a quantidade, a qualidade ou a liberação do meibum pode estar alterada. Isso pode contribuir para instabilidade do filme lacrimal, olho seco evaporativo e alterações das pálpebras.

Portanto, em uma pessoa que utiliza testosterona e passa a apresentar blefarite ou percebe piora dos sintomas, o tratamento hormonal é uma informação relevante para a avaliação oftalmológica, mas não deve ser automaticamente considerado a causa.

Existe um paradoxo: a falta de andrógenos também pode prejudicar as glândulas

Esse é um dos aspectos mais interessantes dessa relação. Se níveis elevados de testosterona foram associados à DGM seborreica em um estudo, pesquisas anteriores também demonstraram que a deficiência de andrógenos pode comprometer as glândulas de Meibômio.

Um estudo publicado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism mostrou que pacientes em tratamento antiandrogênico apresentavam alterações das glândulas de Meibômio, mudanças no perfil lipídico de suas secreções, instabilidade do filme lacrimal e sinais de olho seco evaporativo.

Isso reforça uma mensagem importante: não se trata simplesmente de “quanto mais testosterona, pior” ou “quanto menos testosterona, melhor”. Os andrógenos fazem parte da fisiologia normal das glândulas de Meibômio. Alterações na sinalização hormonal podem interferir no seu funcionamento de diferentes maneiras.

Testosterona pode causar terçol ou calázio?

Não existem evidências suficientes para afirmar que a testosterona seja uma causa direta do terçol, também chamado de hordéolo. Trata-se de um processo inflamatório agudo que acomete glândulas das pálpebras e frequentemente envolve infecção bacteriana. Já o calázio ocorre principalmente devido à obstrução de uma glândula de Meibômio, seguida de um processo inflamatório.

Pacientes que apresentam terçóis ou calázios recorrentes devem ser avaliados para identificar condições predisponentes, entre elas blefarite e disfunção das glândulas de Meibômio. Por isso, quando esses episódios aparecem repetidamente em uma pessoa que utiliza testosterona, anabolizantes ou outras substâncias hormonais, essa informação deve fazer parte da investigação.

E os precursores da testosterona?

A testosterona não é o único hormônio que merece atenção. Existem substâncias que participam da cadeia de produção dos hormônios esteroides e podem dar origem a andrógenos ativos. São os chamados precursores hormonais ou precursores de andrógenos.

Entre os principais estão:

  • DHEA (desidroepiandrosterona);
  • DHEA-S (sulfato de desidroepiandrosterona);
  • androstenediona;
  • androstenediol;
  • pregnenolona, um precursor situado em uma etapa anterior da produção dos hormônios esteroides.

Outros intermediários, como 17-hidroxipregnenolona e 17-hidroxiprogesterona, também participam das vias bioquímicas da esteroidogênese. Contudo, é importante esclarecer que essas substâncias não têm o mesmo efeito e nem todas são convertidas predominantemente em testosterona.

O que o DHEA tem a ver com as glândulas de Meibômio?

Esse é um ponto particularmente interessante à luz de pesquisas mais recentes. Uma revisão publicada em 2026 mostrou que as glândulas de Meibômio possuem mecanismos de metabolismo intracrino de andrógenos. Na prática, isso significa que precursores hormonais produzidos principalmente pelas glândulas adrenais e presentes na circulação podem ser convertidos localmente em andrógenos ativos dentro das próprias glândulas de Meibômio.

Portanto, a atividade androgênica nesse tecido não depende exclusivamente da quantidade de testosterona circulando no sangue. Isso ajuda a compreender por que substâncias como DHEA e DHEA-S são importantes quando estudamos a relação entre hormônios e as glândulas das pálpebras.

E há outro dado interessante: no estudo de Sahin, os pacientes com DGM seborreica apresentaram não apenas testosterona mais elevada, mas também níveis significativamente maiores de DHEA-S. Ainda assim, esses achados não permitem afirmar que suplementação de DHEA cause blefarite, DGM ou terçol.

Uso de testosterona, DHEA e anabolizantes deve ser informado ao oftalmologista?

Sim. Pacientes podem utilizar substâncias hormonais por diferentes motivos e nem sempre relacionam esses tratamentos aos sintomas oculares. Durante uma consulta, é importante informar o uso de:

  • testosterona;
  • DHEA;
  • implantes hormonais;
  • anabolizantes;
  • pró-hormônios;
  • fórmulas manipuladas com hormônios ou precursores hormonais.

Essa informação pode ser especialmente relevante diante de blefarite persistente, olho seco, disfunção das glândulas de Meibômio, terçóis ou calázios recorrentes. Isso não significa interromper uma terapia hormonal prescrita. A suspensão ou modificação de qualquer tratamento deve ser discutida com o médico responsável.

Quais sintomas merecem atenção?

Alguns sinais e sintomas podem indicar alterações das glândulas de Meibômio ou das pálpebras:

  • ardência nos olhos;
  • sensação de areia ou corpo estranho;
  • vermelhidão nas bordas das pálpebras;
  • coceira;
  • crostas próximas aos cílios;
  • sensação de olho seco;
  • visão que oscila ao longo do dia;
  • pequenos nódulos dolorosos nas pálpebras;
  • terçóis recorrentes;
  • calázios de repetição.

Quando esses sintomas persistem ou voltam frequentemente, é importante investigar a causa.

Como tratar a blefarite e a disfunção das glândulas de Meibômio?

O tratamento depende do tipo e da gravidade da alteração encontrada. A higiene adequada das pálpebras pode fazer parte dos cuidados, mas pacientes com blefarite crônica, DGM ou olho seco evaporativo podem precisar de tratamentos específicos.

O objetivo é controlar a inflamação, melhorar a qualidade e a liberação do meibum e recuperar a estabilidade do filme lacrimal. Entre as opções disponíveis está a Luz Intensa Pulsada (IPL), que pode ser indicada em pacientes selecionados com disfunção das glândulas de Meibômio e olho seco evaporativo. A indicação deve ser individualizada após avaliação oftalmológica.

Conheça melhor a Luz Intensa Pulsada, como ela funciona, quanto tempo dura o tratamento, como é a sessão e o que esperar, nos artigos

https://tatiananahas.com.br/2024/09/17/tudo-que-voce-precisa-saber-sobre-a-luz-intensa-pulsada-para-blefarite/

https://tatiananahas.com.br/2026/07/23/luz-intensa-pulsada-para-os-olhos-o-que-voce-precisa-saber/

Perguntas frequentes sobre testosterona, blefarite e terçol

Testosterona causa blefarite?

Não há evidência suficiente para afirmar que a testosterona seja uma causa direta de blefarite. Entretanto, os andrógenos exercem importante influência sobre as glândulas de Meibômio e alterações hormonais podem ser relevantes na investigação de alguns pacientes.

Testosterona alta pode afetar as glândulas de Meibômio?

Um estudo encontrou níveis significativamente mais elevados de testosterona e DHEA-S em pacientes com DGM seborreica quando comparados a controles. O estudo demonstra uma associação, mas não comprova causalidade.

DHEA pode causar blefarite?

Não há evidência suficiente para afirmar isso. O DHEA é um precursor hormonal e pode participar da formação local de andrógenos nas glândulas de Meibômio, mas isso não significa que sua utilização necessariamente cause blefarite.

Testosterona causa terçol?

Não há evidência científica suficiente para considerar a testosterona uma causa direta de terçol. Episódios recorrentes podem estar relacionados a condições como blefarite e disfunção das glândulas de Meibômio e devem ser investigados.

Quem usa testosterona e tem blefarite precisa parar o tratamento?

Não. Um tratamento hormonal prescrito não deve ser interrompido por conta própria. O ideal é comunicar os sintomas ao oftalmologista e ao médico responsável pela terapia hormonal.

Terçol recorrente pode estar relacionado à blefarite?

Sim. Blefarite e disfunção das glândulas de Meibômio estão entre as condições que podem favorecer problemas recorrentes nas glândulas das pálpebras.

Testosterona, blefarite e terçol: afinal, qual é a relação?

Os estudos disponíveis mostram que existe uma relação importante entre andrógenos e funcionamento das glândulas de Meibômio. Um estudo encontrou níveis mais elevados de testosterona e DHEA-S em pacientes com DGM seborreica. Outras pesquisas demonstraram que a deficiência androgênica também pode prejudicar as glândulas de Meibômio.

Pesquisas mais recentes mostram ainda que essas glândulas conseguem converter precursores hormonais circulantes em andrógenos ativos localmente. Portanto, o cenário é mais complexo do que atribuir blefarite ou terçol simplesmente ao “excesso de testosterona”.

Para quem utiliza testosterona, DHEA, implantes hormonais, anabolizantes ou outras terapias hormonais e percebe o surgimento ou a piora de sintomas nas pálpebras, uma avaliação oftalmológica pode ajudar a identificar se existe blefarite, disfunção das glândulas de Meibômio, olho seco ou outra condição associada.

Artigo com supervisão da Dra. Tatiana Nahas – Oftalmologista Especialista em Plástica Ocular, Anexos Palpebrais e Vias Lacrimais – CRM 113070 SP – RQE 74945

Dra. Tatiana Rizkallah Nahas é médica oftalmologista especialista em Cirurgia Plástica Ocular (Oculoplástica) e Vias Lacrimais, com Título de Especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e pela Associação Médica Brasileira (AMB).

Formada pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, onde também realizou residência em Oftalmologia, especializou-se em Cirurgia Plástica Ocular pela USP. Foi Chefe do Serviço de Plástica Ocular da Santa Casa de São Paulo por oito anos e integrou a equipe do Setor de Plástica Ocular do Wilford Hall Medical Center, nos Estados Unidos.

É membro da Diretoria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Ocular (SBCPO) e da Sociedade Panamericana de Oculoplástica, além de atuar como palestrante e professora em cursos de formação e especialização médica.

Atende em consultório no Itaim Bibi, em São Paulo, e realiza procedimentos cirúrgicos em hospitais de referência da capital paulista. Veja aqui como chegar:

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Para mais informações, ligue para (11) 3071-342

Atualizado em 23.09.2026

Referências

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